OPINIÃO - Folha de Londrina - 29/01/2008
HÁBITOS ALIMENTARES - 97% dos jovens alimentam-se mal
Conclusão é de pesquisa divulgada pela USP; o mau exemplo vem de casa, afirma o endocrinologista Leandro Diehl
O brasileiro não se alimenta direito. E, se depender dos resultados de recente pesquisa feita pela Universidade de São Paulo (USP), o quadro não deve mudar tão cedo. É que 97% dos jovens, entre 12 e 19 anos, ouvidos pelos pesquisadores, alimentam-se de forma errada. Eles excluem verduras e legumes de seus respectivos cardápios.
Habituado à apatia de pacientes ao cardápio colorido, o endocrinologista Leandro Diehl, de Londrina, acredita que santo de casa faz milagre. ''Os pais têm de dar o exemplo'', acentua.

Segundo Diehl, o peso das crianças está diretamente ligado ao tempo que ela passa em frente à televisão. Foto: César Augusto
A quais conclusões chegamos, ao analisar os hábitos alimentares de crianças e jovens?
Em primeiro lugar, os hábitos alimentares de jovens e crianças refletem muitas vezes os hábitos da própria família. Então, o principal determinante da alimentação do jovem e da criança é o fator sócio-cultural. Não vemos, comumente, pais dando o exemplo, consumindo frutas, verduras e legumes em casa e mostrando que isso é importante para iniciar o jovem numa alimentação mais correta e equilibrada.
O Brasil está entre os piores exemplos?
A maioria dos países industrializados apresenta uma alimentação bastante semelhante à nossa. Os Estados Unidos, por exemplo, berço da geração fast food, apresentam hábitos alimentares até piores que os nossos. Então, além do contexto familiar, temos questões culturais do próprio adolescente em seu meio: quando o grupo de amigos da escola sai para a balada, dificilmente vai escolher um prato de salada. Opta-se sempre pelas pizzas, pelos sanduíches e demais alimentos calóricos. Com isso, temos uma epidemia de obesidade, no mundo, em crianças e adolescentes, o que aumenta muito a chance de problemas de saúde no futuro.
Podemos chegar à conclusão que os hábitos do mundo moderno alavancam os índices de obesidade?
Sem dúvidas. A violência urbana, o computador e os demais aparatos tecnológicos afastaram as crianças da bicicleta, do campo de futebol e das cordas. Agora, nada de se equilibrar sem rodinhas, jogar bola ou pular corda: a diversão é navegar na internet. Uma recente pesquisa mostrou que o peso das crianças muitas vezes está relacionado ao número de horas que elas passam em frente à TV.
O senhor falou sobre epidemia. E como evitar que a obesidade se propague?
As escolas poderiam promover, com a contratação de nutricionistas, programas para conscientizar os alunos. É necessário informar o quanto é importante manter uma dieta equilibrada para se ter boa saúde. Uma outra saída seria a regulamentação dos alimentos vendidos nas cantinas. No Brasil, há uma Lei, recentemente criada, que proíbe a venda de alimentos gordurosos e refrigerantes às crianças. Tudo, claro, na tentativa de aumentar a oferta de sucos e de produtos integrais. É importante também tentar envolver a comunidade e restringir o acesso a alimentos calóricos. Como a diversão do jovem está ligada à comida, creio que o caminho seja longo.
Essa fuga dos mais novos em relação às verduras não vem de hoje, certo? Qual o balanço que podemos fazer da alimentação dos jovens, nas últimas décadas?
A alimentação está piorando. Antigamente, as crianças e os jovens faziam as refeições em casa, o cardápio era preparado pela mãe. Hoje, com a agitação da vida moderna, em que os responsáveis trabalham fora, somada à agenda apertada, com turnos de estudos cada vez mais extensos, come-se o que há de mais calórico na rua. Se antes tínhamos o refrigerante de 350 ml, hoje as garrafas pet chegam aos três litros. Então, podemos afirmar que houve uma mudança sim. Para muito pior.
Hora de se mudar o padrão alimentar?
Sim. Contudo, é importante ressaltar que crianças e adolescentes não devem fazer dieta muito restritiva, pois estão em fase de crescimento. O ideal é a alimentação equilibrada, em que se pode abrir uma brecha, no final de semana, e não se privar do tão cobiçado sanduíche. O que não pode é o lanche ser a regra e as frutas e verduras se converterem em exceção.
Mito ou verdade: você é o que você come?
Não somente. Você é o que você faz também. Temos o componente genético, que requer maior atenção e cuidados.
A China está em pleno período de desenvolvimento. Desenvolvimento e grandes indústrias e magazines remetem às redes de fast food, também. O que vem por aí?
A situação de saúde nesses países vai ser pior ainda. Os orientais têm complicações de saúde mais graves quando deixam sua dieta e são expostos aos atrativos do mundo ocidental. A gordura saturada e o sal, típicos desses lados, aumentam a prevalência dos índices de diabetes e taxas de peso.
Thiago Nassif -
Reportagem Local
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