Jornal Hoje (Rede Globo) - 28 de abril de 2005
Cristiane Leite, Belo Horizonte, MG
Quarenta por cento dos brasileiros, cerca de 70 milhões de pessoas, estão acima do peso. A vontade de emagrecer aumenta o consumo de inibidores de apetite.
O pior é que esse tipo de remédio, muitas vezes, é indicado sem critério pelos médicos e vendido sem receita nas farmácias.
Há seis anos uma mulher usa inibidor de apetite. Ela não vai ao consultório do médico há nove meses, mas renova a receita a cada 60 dias. Basta dar um telefonema.
“O médico não pode prescrever sem examinar o paciente. Ele é passível de punição: advertência, suspensão e até cassação do exercício profissional”, disse Maurício Leão de Rezende, presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais.
Medicamentos classificados como anoréxicos só podem ser vendidos com receitas tipo B. Um levantamento da Vigilância Sanitária de Belo Horizonte com duas mil receitas, mostra que 42% delas têm irregularidades. Rasuras, falta do número da Secretaria de Saúde e o mais grave: algumas não descrevem o uso correto e em outras há superdosagem.
“A gente levantou receitas com uma dosagem muito maior do que é o recomendado na literatura científica. Por exemplo: Temploporex, a dose habitual é de 25mg. A gente achou prescrição com 100mg por dia”, disse Mônica Gontijo, fiscal da Vigilância Sanitária.
Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde comprovou que o consumo de remédios para emagrecer no Brasil aumentou 500%. Além da falta de critérios dos médicos na indicação de substâncias inibidoras de apetite, a venda de anoréxicos no país é facilitada.
O levantamento foi feito entre 1998 e 2003. Em uma farmácia, sem saber que estavam sendo filmado, o funcionário vendeu o remédio sem pedir a receita. Ainda ofereceu mais caixas do medicamento. Pelo telefone, pedimos ao mesmo vendedor para entregar o remédio em casa.
Quando nossos repórteres voltaram à farmácia o funcionário negou tudo. “Nós nem trabalhamos com esse medicamento”.
A Vigilância Sanitária diz que os livros sobre a venda de remédios com tarja preta são conferidos nas fiscalizações. A venda de todo medicamento controlado deve ser feita com receita médica e, em caso de irregularidade, a farmácia pode ser multada e até fechada.
Fonte: Jornal Hoje (Globo) 28/04/05
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